Lidando com fobias
- Márcio Antonio Altilio Moreira - CRP/MG 13451
- há 3 dias
- 11 min de leitura
O que é uma Fobia?
A palavra fobia vem do grego Phóbos (que significa medo). Ela não é um medo comum, mas sim um medo ou aversão exagerada que surge quando a pessoa está diante de um objeto ou situação específica — ou até mesmo quando apenas pensa ou ouve falar sobre isso.
Quando o medo vira fobia?
Para um medo ser classificado como fobia, ele precisa atrapalhar de verdade a vida da pessoa, impedindo-a de realizar suas atividades normais do dia a dia.
Alguns exemplos comuns de fobia são medos que a própria pessoa sabe que são irracionais, como:
Animais ou insetos que não oferecem perigo real.
Andar de elevador, avião ou outros transportes.
Procedimentos médicos, odontológicos ou tomar injeção.
Situações do cotidiano, como lugares fechados (quartos pequenos) ou lugares altos.
O risco de não tratar: Quando a pessoa consegue evitar a situação que teme (por exemplo, usando as escadas em vez do elevador), ela costuma não procurar ajuda. Porém, não tratar o problema pode fazer com que a fobia aumente e passe a atingir situações que antes não causavam nenhum desconforto.
Medo Normal vs. Fobia
É importante lembrar que o medo é uma reação natural e saudável que serve para nos proteger de perigos reais.
Medo Normal: Ter medo de um cão feroz solto na rua, de uma inundação ou de ficar na beirada de um penhasco sem proteção. Isso é instinto de sobrevivência.
Fobia (Patológico): Ter crise de pânico só de imaginar o cachorro, ou sentir um medo paralisante de altura estando seguro dentro de um apartamento fechado.
Em resumo: ter medo diante de um perigo real é normal. Ter medo daquilo que não está presente ou não oferece risco é fobia.
De acordo com o DSM-IV (p. 419) as fobias são classificadas em três tipos:
1. Agorafobia
É o medo intenso de ficar em lugares ou situações de onde seja difícil ou embaraçoso escapar, ou onde a pessoa sinta que não terá ajuda se passar mal (como ter uma crise de ansiedade ou de pânico).
Na prática: A pessoa passa a evitar locais como transporte público, shoppings cheios, shows, túneis ou até mesmo filas, preferindo ficar em locais que considera totalmente seguros, como a própria casa.
2. Fobia Específica
É o medo exagerado e paralisante de um objeto ou de uma situação bem definida. Esse medo é tão grande que a pessoa faz de tudo para fugir ou passar longe do que teme.
Na prática: É o famoso medo irracional de coisas pontuais. Exemplos comuns incluem o medo de animais (como aranhas ou cachorros), medo de altura, de andar de avião, de tomar injeção ou de ver sangue.
3. Fobia Social (ou Ansiedade Social)
É o medo profundo de ser julgado, avaliado negativamente ou passar vergonha em situações sociais ou ao ter que realizar alguma atividade na frente dos outros.
Na prática: Não é apenas uma timidez comum. A pessoa sente uma ansiedade extrema ao ter que falar em público, ir a festas, comer perto de outras pessoas, participar de reuniões de trabalho ou até mesmo iniciar uma conversa com desconhecidos, tendendo a se isolar para evitar o desconforto.
A seguir, com fim ilustrativo, apresentamos uma relação de fobias com seus nomes de origem e que estão incluídos nos tipos classificados acima:
Acarofobia - tipo de hipocondria em que o indivíduo apresenta medo mórbido de contrair sarna;
Acrofobia - medo mórbido de alturas;
Agorafobia - medo mórbido de se achar sozinho em grandes espaços abertos ou de atravessar lugares públicos;
Amaxofobia - medo mórbido de se encontrar ou viajar em qualquer veículo;
Astrofobia - sentimento de pavor aos trovões e aos relâmpagos;
Basiofobia - medo doentio de cair, ao andar;
Cinofobia - aversão ou temor doentio de cães;
Claustrofobia - medo mórbido de permanecer em espaços fechados;
Ergofobia - horror mórbido ao trabalho;
Fobofobia - medo dos próprios medos;
Gimnofobia - repulsa ou medo ao nudismo;
Heliofobia - Aversão patológica à luz do sol;
Hematofobia - aversão ao sangue; medo mórbido de sangue; hemofobia;
Hidrofobia - aversão ou temor mórbido aos líquidos;
Hipnofobia - medo de dormir, terror ou medo durante o sono;
Maieusofobia - medo doentio do parto;
Militofobia - horror à vida ou ao regime militar, ou aos militares em geral;
Misofobia - medo mórbido de sujeira, imundícies ou de contaminação;
Monofobia - medo mórbido da solidão;
Necrofobia - medo mórbido da morte ou dos mortos;
Nictofobia - medo mórbido da noite; horror à escuridão;
Nosofobia - medo mórbido de determinada doença;
Oclofobia - medo mórbido da multidão, da plebe;
Pirofobia - pavor mórbido ao fogo;
Tafofobia - terror doentio de ser sepultado vivo;
Tanatofobia - temor doentio da morte;
Topofobia - medo mórbido de certos lugares;
Uiofobia - aversão aos próprios filhos;
Xenofobia - desconfiança, temor ou antipatia por pessoas estranhas ao meio daquele que as ajuíza, ou pelo que é incomum ou vem de fora do país; xenofobismo;
Zoofobia - horror, medo doentio de qualquer animal;
Características Gerais
1. Agorafobia: O Medo de Ficar "Sem Saída"
A principal característica da agorafobia é o medo e a ansiedade de estar em lugares ou situações onde fugir seria difícil, embaraçoso ou onde a pessoa sente que não teria ajuda se passasse mal (como ter uma crise de pânico, uma tontura súbita ou um mal-estar intestinal).
Como ela acontece: Raramente a agorafobia vem sozinha. Na maioria das vezes, ela caminha junto com o Transtorno de Pânico.
Medo Real vs. Agorafobia: Se uma pessoa evita sair de casa porque tem uma doença física real que causa desmaios ou crises de diarreia (como a Doença de Crohn), isso não é agorafobia, pois o risco é real. A agorafobia só é diagnosticada quando o medo é psicológico e desproporcional à realidade.
O que não é Agorafobia: Também não conta como agorafobia se o motivo de evitar os lugares for o medo de se sujar de germes (que é do TOC) ou o medo de se separar dos pais (que é a Ansiedade de Separação).
2. Fobia Específica: O Medo de Coisas Pontuais
A fobia específica é o medo exagerado, persistente e focado em um objeto ou situação muito clara.
A reação: Quando a pessoa fica de frente com o que teme, a ansiedade é quase imediata e pode virar um ataque de pânico.
A pessoa sabe que é exagero: Os adultos com fobia sabem que o medo deles não faz sentido lógico (é irracional), mas mesmo assim não conseguem controlá-lo sozinhos.
A saída é fugir: Para não sofrer, a pessoa faz de tudo para escapar da situação. Quem tem medo de elevador usa a escada; quem tem medo de avião prefere viajar dias de carro.
O critério de fobia: Só é considerado fobia se esse medo atrapalhar de verdade a rotina da pessoa ou causar um sofrimento muito profundo.
Os 5 Tipos de Fobia Específica
Para facilitar, a psicologia divide essas fobias em cinco grupos:
1. Animal
O que causa medo: Bichos ou insetos (geralmente começa na infância).
Exemplos comuns: Aranhas, cobras, cachorros, baratas.
2. Ambiente Natural
O que causa medo: Situações da própria natureza (também comum na infância).
Exemplos comuns: Altura, tempestades, trovões, água profunda.
3. Sangue-Injeção-Ferimentos
O que causa medo: Ver sangue, machucados ou passar por procedimentos médicos.
Exemplos comuns: Tomar agulhada, fazer exames de sangue, ver cirurgias
.
4. Situacional
O que causa medo: Lugares ou momentos específicos.
Exemplos comuns: Andar de avião, elevador, passar por túneis, dirigir.
5. Outros Tipos
O que causa medo: Estímulos variados que não entram nas categorias acima.
Exemplos comuns: Medo de engasgar, medo de vomitar, medo de palhaços ou barulhos muito altos (comum em crianças).
Como as Fobias Começam?
As fobias não são iguais para todo mundo: elas mudam de acordo com a cultura, a idade, a história de vida e o ambiente de cada pessoa. Na grande maioria das vezes, elas começam na infância ou no início da adolescência através de dois caminhos principais:
Eventos Traumáticos: Passar por uma situação assustadora real, como ser atacado por um animal, ficar trancado em um quarto escuro ou preso em um elevador.
Influência Externa: Ouvir histórias assustadoras de pais, cuidadores ou da mídia (como medo de assombrações, sequestros ou acidentes graves) que ficam marcadas na mente da criança.
O Medo "Escondido" (Latente)
Nem sempre a fobia aparece logo após o susto. Muitas vezes, o trauma fica guardado na mente de forma silenciosa e só se manifesta anos mais tarde.
Isso acontece quando a pessoa passa por uma situação atual que desperta as mesmas emoções e reações físicas (como taquicardia, falta de ar ou suor frio) que ela sentiu lá no passado.
Quando um medo antigo se transforma em um medo novo?
Com o tempo, o cérebro pode "substituir" o objeto do medo original por uma situação nova do presente. Veja como funciona na prática:
Exemplo: Uma criança fica presa em um quarto escuro. Ela sente um medo profundo, mas, com o apoio e carinho dos pais, ela supera o episódio e cresce normalmente.
Anos depois, já adulta, essa pessoa entra em um elevador e falta energia. Mesmo que a energia volte logo em seguida e o elevador fique parado por pouco tempo e nada aconteça, o simples fato de imaginar ficar presa no escuro desperta as mesmas emoções e sensações físicas daquele trauma de infância.
A partir daí, a mente faz uma troca: o medo antigo (do quarto escuro) é substituído por uma fobia nova (medo de elevador).
03. Fobia Social (ansiedade social)
A Fobia Social é muito mais do que uma timidez comum. Ela é um medo intenso e paralisante de ser observado, julgado, criticado ou passar vergonha em público.
A pessoa sente uma ansiedade profunda em qualquer situação onde possa se sentir avaliada pelos outros.
Situações mais comuns que causam esse medo:
Falar para uma plateia ou apresentar um trabalho em sala de aula.
Passar por uma entrevista de emprego ou prova oral.
Conversar em uma roda com várias pessoas ou participar de atividades em grupo.
Situações simples do dia a dia, como comer, beber ou escrever em público (pelo medo de que os outros reparem em suas mãos tremendo).
O comportamento de fuga: Para não passar por esse sofrimento, a pessoa faz de tudo para evitar essas situações. Quando não tem escolha e precisa enfrentar o momento, ela o suporta com um pavor enorme, o que pode até desencadear uma crise de pânico.
Como o corpo e a mente reagem?
A fobia social mexe tanto com os pensamentos quanto com o corpo físico. Veja os sintomas mais comuns:
Na Mente (Reações Psicológicas):
Preocupação exagerada com o que os outros estão pensando.
Medo de gaguejar ou travar ao falar.
Vergonha extrema e medo de que as pessoas percebam o seu nervosismo.
No Corpo (Reações Físicas):
Ficar com o rosto vermelho (rubor facial) e suar frio.
Tremores nas mãos ou na voz e tensão nos músculos.
Coração acelerado (palpitações).
Nervosismo no estômago, enjoos ou dor de barriga súbita.
Como é o Tratamento das Fobias?
Superar uma fobia é perfeitamente possível. Hoje em dia, existem caminhos muito eficientes para ajudar o indivíduo a retomar o controle da sua vida. O tratamento pode ser feito de três formas:
Medicamentoso (Farmacológico): Conduzido por um médico psiquiatra, que pode receitar medicamentos para aliviar os sintomas físicos e diminuir a intensidade da ansiedade no dia a dia.
Psicoterápico: Realizado por um psicólogo. A psicoterapia atua diretamente na raiz do medo, ajudando a mente a processar o trauma e a mudar a forma como reage às situações temidas.
Misto (Combinado): É a união dos dois tratamentos (psicologia + psiquiatria), o que costuma trazer excelentes resultados para casos mais graves.
Os caminhos da Psicoterapia
Muitas vezes, os médicos indicam abordagens tradicionais como a TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) ou a Psicanálise. No entanto, a psicologia moderna oferece diversas outras abordagens e metodologias focadas que, muitas vezes, trazem ótimos resultados e podem levar à cura com poucas sessões. São o caso do EMDR, Brainspotting e Hipnose. Essas técnicas são bem efetivas e trazem resultado duradouro. O mais importante é que o paciente encontre um profissional com quem se sinta seguro e acolhido.
A metáfora do "Iceberg"
É fundamental compreender que o processo nem sempre é imediato. Em certos casos, a fobia é apenas a ponta de um iceberg.
Por trás daquele medo exagerado de um elevador ou de um animal, podem existir traumas guardados, dinâmicas familiares antigas ou outras dores emocionais ocultas. Nesses casos, o tratamento pode se estender um pouco mais, indo além do sintoma inicial, até que o indivíduo resolva as causas mais profundas e recupere as condições para voltar a fluir na vida com leveza e autonomia.
Como Funciona a Psicoterapia no Consultório?
Para o tratamento das fobias, eu utilizo abordagens modernas e focadas, escolhidas de acordo com a personalidade e a necessidade de cada paciente. Conheça as principais ferramentas que utilizo:
EMDR e Brainspotting: São técnicas inovadoras que ajudam o cérebro a "limpar" a carga dolorosa de memórias antigas. No EMDR, nós acessamos a lembrança que causa o medo e reprocessamos as emoções e sensações físicas ligadas a ela. No Brainspotting, identificamos pontos específicos no campo visual que estão conectados ao sofrimento no cérebro, estimulando a mente a se curar. Ambas costumam trazer resultados expressivos em pouco tempo.
Hipnose Clínica (Abordagem Ericksoniana): Uma técnica altamente permissiva e respeitosa, onde ajudamos o paciente a entrar em um estado de relaxamento profundo (transe). Nele, podemos acessar a origem do trauma através da regressão ou usar sugestões terapêuticas para aliviar os sintomas e mudar comportamentos.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Focada no presente, na nossa capacidade racional e no comportamento. É ideal para quando o paciente precisa aprender técnicas práticas para enfrentar o medo e mudar pensamentos automáticos que geram ansiedade.
Fobias Complexas: O Medo Como um "Passo a Passo"
Embora algumas fobias sejam simples (como o medo de um inseto específico), outras funcionam como um processo longo e complexo. O melhor exemplo disso é o medo de andar de avião.
A ansiedade de quem tem fobia de voar não acontece só na hora de subir na aeronave. Ela se divide em várias fases:
1. A Tomada de Decisão: Fase Inicial.
A ansiedade já começa no momento de decidir viajar ou ao comprar a passagem.
2. O Trajeto e Embarque: Fase de Aproximação.
O nervosismo aumenta na ida para o aeroporto, na sala de espera e ao pisar dentro do avião.
3. O Voo em Si: Fase Crítica.
O ápice do medo costuma acontecer na decolagem, durante as turbulências ou no pouso.
4. A Antecipação do Retorno: Fase Final.
Mesmo após chegar ao destino, a pessoa não relaxa, pois já sofre pensando no voo de volta.
Como tratamos essa complexidade?
No consultório, nós não tratamos o "andar de avião" de uma vez só. Nós fazemos uma simulação mental guiada de cada uma dessas etapas. Identificamos onde o medo fica mais forte e usamos as técnicas (como o EMDR ou a Hipnose) para limpar a tensão de cada fase, uma por uma, até que todo o processo da viagem se torne tranquilo.
A Fobia Social Também é um Processo
A Fobia Social funciona de forma muito parecida. O sofrimento raramente acontece apenas na hora do evento.
Se um paciente precisa apresentar um projeto no trabalho ou na escola, a mente dele começa a sofrer semanas antes, desde o dia em que o chefe fez o pedido. O nervosismo continua durante a preparação e atinge o limite na hora de falar em público.
Esse mesmo "passo a passo" de ansiedade acontece em situações como:
Ir a uma entrevista de emprego relevante.
Assinar um documento importante no cartório diante de testemunhas.
Ir a um encontro com alguém que se deseja muito conquistar.
Almoçar ou interagir com colegas de trabalho e pessoas em cargos de destaque.
A Escolha da Melhor Técnica: Cada ser humano é único. Por isso, a escolha de qual dessas ferramentas usar dependerá da sua personalidade e do seu ritmo.
Bibliografia
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DSM-IVTM – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. trad. Cláudia Donelles; – 4ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002.
GRAND, David. Cura emocional em velocidade máxima – o poder do EMDR (dessensibilização e reprocessamento através dos movimentos oculares). Brasília: Editora Nova Temática. 2007.
LEVINE, Peter A. O Despertar do Tigre – curando o trauma. São Paulo: Summus, 1999.
ROBLES, Teresa. Concerto para quatro cérebros em psicoterapia. Tradução de Manuel Angel Valencia Rodrigues. Belo Horizonte: Editorial Diamante, 2001.
ROSSI, Ernest Lawrence Ph.D. A Psicobiologia da cura mente-corpo. Tradução de Ana Rita P. de Moraes. Campinas: Editorial Psy, 1997.
SHAPIRO, Francine. EMDR – Dessensibilização e reprocessamento através dos movimentos oculares. Brasília: Editora Nova Temática, 2007.
TenDan, Hans. Cura Profunda. São Paulo: Summus, 1997









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